O Segredo de Fátima foi revelado por completo?
- Lucas Gelásio
- 17 de abr.
- 36 min de leitura
Atualizado: há 3 horas

Dentre as aparições marianas, poucas questões são tão cercadas de mistério quanto o Segredo confiado por Nossa Senhora de Fátima aos jovens pastorinhos.
Diante das divergências nas informações a seu respeito, muitos sustentam que a Terceira Parte do Segredo divulgada está incompleta. Neste artigo, analisarei a história do documento para verificar o que, de fato, procede nessa controvérsia.
O Segredo foi revelado em 13 de julho de 1917 e compõe-se de três partes. A primeira e a segunda foram postas por escrito pela Irmã Lúcia pela primeira vez em 31 de agosto de 1941. Costuma-se chamá-las, coloquialmente, de “Primeiro”, “Segundo” e “Terceiro Segredo”. Ao longo deste texto, contudo, adotarei a expressão “Terceira Parte do Segredo”, por maior precisão, ou simplesmente “Segredo”, quando a brevidade o exigir.
Não haveria surpresa nem novidade se o Segredo tivesse sido escrito em mais de uma versão, e que uma tivesse conteúdos que não estivessem na outra. O mesmo ocorrera também no caso de La Salette, escrito duas vezes por Maximin e três vezes por Mélanie, já analisado em outro artigo.
Primeira Parte do Segredo
Assim Irmã Lúcia descreveu a Primeira Parte do Segredo:
Bem, o segredo consta de três coisas distintas, duas das quais vou revelar.
A primeira foi pois a vista do Inferno!
Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados nesse fogo, os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saíam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das fagulhas nos grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero, que horrorizava e fazia estremecer de pavor. Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros. Esta vista foi um momento, e graças à nossa boa Mãe do Céu, que antes nos tinha prevenido com a promessa de nos levar para o Céu (na primeira aparição). Se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.
Segunda Parte do Segredo
O trecho acima é seguido imediatamente pelo que consta abaixo, e que é chamado de Segunda Parte do Segredo:
Em seguida, levantamos os olhos para Nossa Senhora, que nos disse, com bondade e tristeza:
– Vistes o Inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar. Mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.
Em outra versão escrita pela Irmã Lúcia, de 8 de dezembro de 1941, o final tem uma frase a mais:
Em Portugal, se conservará sempre o dogma da Fé, etc. Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo.
O uso de “etc” em um contexto em que não há enumeração remete a um hábito antigo de utilizá-lo para indicar que há uma continuidade no texto que não será dita no momento. Por conta disso, muitos investigadores do caso, como o Irmão Michel de la Sainte Trinité, que compreendem que essa frase já dá início à Terceira Parte do Segredo.
A expressão “em Portugal, se conservará sempre o dogma da Fé” traz implícita a ideia de que, em outras nações, não será assim.
Considerando-se que a Segunda Parte termina falando de um tempo de paz posterior à tribulação — algo que se interpreta, à luz de outras revelações, como um tempo de conversão da humanidade —, a frase adicionada não parece dar continuidade ao discurso da paz, mas sim iniciar um novo tema ou recpitular o período da tribulação já mencionado.
As duas primeiras partes do Segredo foram tornadas públicas em 1942, por meio de diversos impressos e livros. A terceira, por outro lado, não foi escrita tão cedo. Quando questionada, Irmã Lúcia dizia que ainda não havia recebido a permissão do Céu para a escrever. Chegou também a afirmar que não era necessário escrevê-la, pois já a havia dito, de algum modo, e com clareza — o que reforça a interpretação de que a frase sobre a crise de fé já antecipava o tema do trecho final do segredo.
A História da Terceira Parte do Segredo
A vidente só recebeu a autorização celeste para escrever o restante do segredo em 2 de janeiro de 1944, após ter recebido uma ordem de Dom José Alves Correia da Silva, bispo da Diocese de Leiria. Uma semana depois, em 9 de janeiro, ela avisou-o de que já havia escrito o Segredo. O texto foi escrito em uma folha e selado em um envelope, e este colocado dentro do caderno onde ela escrevia o seu diário espiritual.
Em 17 de junho, a Irmã Lúcia entregou o caderno com o envelope a Dom Manuel Maria Ferreira da Silva, arcebispo de Gurza, que, na mesma noite, o levou a Dom José da Silva.
A Irmã Lúcia disse que o bispo de Leiria deveria manter o documento em sua posse até a sua morte, quando então deveria ser entregue ao cardeal-patriarca de Lisboa. Apesar da instrução, o bispo entrou em contato com Roma, sugerindo já entregá-lo. Entretanto, as autoridades do Vaticano responderam que seria melhor manter o Segredo na Diocese de Leiria.
Dom José da Silva não quis abrir o envelope para ler o segredo. A Irmã Lúcia, ao saber disso, disse-lhe que a carta deveria ser aberta e lida para o mundo ou quando ela morresse, ou em 1960, o que acontecesse primeiro.
No ano seguinte, Dom José da Silva achou melhor colocar o envelope de Lúcia, ainda lacrado, dentro de outro envelope maior, igualmente lacrado, no qual escreveu:
Este envelope com o seu conteúdo será entregue a Sua Eminência Cardeal D. Manuel, Patriarca de Lisboa, depois de minha morte. Leiria, 8 de dezembro de 1945. José, Bispo de Leiria.
No início de fevereiro de 1946, a Irmã Lúcia repetiu ao Padre Jongen que a Terceira Parte do Segredo não deveria ser revelada antes de 1960. Em 14 de maio de 1953, confirmou a Oursler Armstrong e Martin F. Armstrong que deveria ser aberta e divulgada em 1960. Ao cardeal Ottaviani, afirmou, em 17 de maio de 1955, que o conteúdo do Segredo estava reservado para 1960 porque, naquele ano, ele ficaria mais claro. Portanto, havia uma instrução explícita de se divulgar o Segredo em 1960.
Apenas no início de 1957, o Santo Ofício solicitou à Cúria de Leiria fotocópias de todos os escritos de Lúcia, incluindo o Segredo. Enquanto eram produzidas, Dom José da Silva, que decidira enviar o manuscrito original do Segredo, foi exortado por seu bispo auxiliar, Dom Venâncio, a abrir e ler seu conteúdo antes de enviá-lo para Roma. Ele respondeu:
“Não, isso não me interessa. É um segredo, não quero lê-lo.”
Dom Venâncio, de posse do envelope lacrado com o Segredo, examinou-o minuciosamente, identificando suas medidas e conteúdos. Discerniu, dentro do envelope maior, o menor e, dentro deste, uma folha de papel comum com margens de três quartos de centímetro em cada lado.
A informação de que o texto fora escrito em apenas uma página viria a ser confirmada posteriormente também pelo cardeal Ottaviani, que era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e chegou a lê-lo, segundo o padre Joaquín María Alonso, arquivista oficial de Fátima. Diante disso, o irmão François de Maria des Anges deduziu que a Terceira Parte do Segredo deveria ter de vinte a vinte e cinco linhas, ou seja, algo equivalente ao tamanho da Segunda Parte. O irmão Michel de la Sainte Trinité, por sua vez, deduziu que seriam de vinte a trinta linhas.
Na segunda quinzena de março de 1957, o envelope do Segredo, ainda selado, foi entregue ao núncio em Lisboa. Chegou a Roma em 16 de abril, segundo o Padre Alonso. Em 14 de maio de 1957, segundo um relato de Madre Pasqualina a Robert Serrou, o envelope encontrava-se no apartamento do Papa Pio XII, em um cofre de madeira destinado a segredos do Santo Ofício. A revista Paris Match, com uma fotografia de 1958, confirmou o relato.
Outros documentos divergem quanto à data de chegada do Segredo a Roma. Quando veio a ser revelado o conteúdo da Terceira Parte do Segredo, o documento do arcebispo Tarcisio Bertone descreveu-o como tendo sido recebido em 4 de abril de 1957. Há investigadores, como Andrew M. Cesanek, que interpretam essa divergência como evidência de que teriam existido dois documentos distintos escritos pela Irmã Lúcia, ambos tratando do Segredo.
Dom José da Silva faleceu em 4 de dezembro de 1957 e Pio XII em 9 de outubro de 1958. Nenhum dos dois chegou a ler o conteúdo do Segredo.
Em 26 de dezembro de 1957, a Irmã Lúcia disse ao Padre Fuentes:
“Padre, a Santíssima Virgem está muito triste porque ninguém tem dado atenção à Sua mensagem, nem os bons nem os maus. Os bons seguem o seu caminho, mas sem dar importância à Sua mensagem. Os maus, não vendo o castigo de Deus cair sobre eles, continuam a sua vida de pecado sem sequer se importarem com a mensagem. Mas acredite em mim, padre, Deus castigará o mundo e isso acontecerá de uma maneira terrível. O castigo do Céu é iminente.”
“Padre, quanto tempo falta para chegar o ano de 1960? Será muito triste para todos e ninguém se alegrará se, antes disso, o mundo não rezar e fizer penitência. Não posso dar mais detalhes porque ainda é um segredo. Segundo a vontade da Santíssima Virgem, somente o Santo Padre e o Bispo de Fátima têm permissão para conhecer o Segredo, mas eles escolheram não conhecê-lo para não serem influenciados. Esta é a terceira parte da Mensagem de Nossa Senhora, que permanecerá secreta até 1960.”
“Diga-lhes, padre, que muitas vezes a Santíssima Virgem disse aos meus primos Francisco e Jacinta, assim como a mim, que muitas nações desaparecerão da face da Terra. Ela disse que a Rússia será o instrumento de castigo escolhido pelo Céu para punir o mundo inteiro, se não conseguirmos antes a conversão dessa pobre nação...”
“Padre, o Demônio está com vontade de travar uma batalha decisiva contra a Santíssima Virgem. E o Demônio sabe o que mais ofende a Deus e o que, em pouco tempo, lhe renderá o maior número de almas. Assim, o Demônio faz de tudo para vencer as almas consagradas a Deus, porque, dessa forma, ele conseguirá deixar as almas dos fiéis abandonadas por seus líderes, e assim, mais facilmente, se apoderará delas.”
“O que aflige o Imaculado Coração de Maria e o Coração de Jesus é a queda das almas religiosas e sacerdotais. O Demônio sabe que religiosos e sacerdotes que se afastam de sua bela vocação arrastam inúmeras almas para o inferno... O demônio deseja se apoderar das almas consagradas. Ele tenta corrompê-las para adormecer as almas dos leigos e, assim, levá-los à impenitência final. Ele usa todos os artifícios, chegando ao ponto de sugerir o adiamento da entrada na vida religiosa. Disso resulta a esterilidade da vida interior e, entre os leigos, a frieza (falta de entusiasmo) em relação à renúncia aos prazeres e à dedicação total a Deus.”
Há várias informações relevantes neste texto. Após citar a terceira parte da mensagem, a Irmã Lúcia afirmou que “muitas vezes a Santíssima Virgem disse” aos três pastorinhos que “muitas nações desaparecerão da face da Terra”. Sabe-se que Ela disse isso apenas uma vez, em 13 de julho de 1917. Portanto, é possível que a Virgem Maria tenha repetido essa informação na parte final do Segredo.
Nota-se também que a Irmã Lúcia disse que era necessário rezar antes de 1960 para que não acontecesse uma grande tristeza e vinculou isso ao Segredo ainda não revelado. Assim, entende-se que parte do castigo anunciado poderia começar já nos arredores daquele ano.
Em 25 de janeiro de 1959, o Papa João XXIII convocou um novo concílio. Em relação a isso, no Vaticano, surgiu um clima otimista que contrastava com a mensagem grave de Fátima, já cercada de opositores. Falar do Castigo, naquele contexto, passou a soar como uma forma de desacreditar o Concílio e, com isso, de se opor ao Sumo Pontífice.
Sabe-se que o Papa recebeu o envelope do Segredo em 17 de agosto, em Castel Gandolfo, trazido do Santo Ofício pelo Pe. Paul Philippe, e o leu apenas alguns dias depois, junto de seu confessor, Monsenhor Alfredo Cavagna, e com a ajuda de um tradutor, Monsenhor Paulo José Tavares. Não é pública a informação sobre quando nem por que o Segredo havia sido retirado do apartamento oficial do Papa.
Após ler o texto, João XXIII escreveu uma nota pessoal, junto com Monsenhor Loris Capovilla, que foi colocada no envelope com o Segredo. O documento permaneceu sobre a escrivaninha de seu aposento até a sua morte, em 3 de junho de 1963.
Segundo Monsenhor Capovilla, o Papa João XXIII disse que o conteúdo do Segredo não dizia respeito aos anos de seu pontificado e que preferia deixar a apreciação do texto para “outros”, referindo-se a futuros papas.
Em 8 de fevereiro de 1960, em meio à grande expectativa dos fiéis pela revelação do trecho final da mensagem de Fátima, a agência de notícias ANI anunciou que o Vaticano não revelaria o segredo:
Acaba de ser dito, em círculos muito confiáveis do Vaticano, aos representantes da United Press International, que é muito provável que a carta na qual a Irmã Lúcia anotou as palavras que Nossa Senhora confiou em segredo aos três pastorinhos, na Cova da Iria, nunca seja aberta.
Conforme indicado pela Irmã Lúcia, a carta só poderia ser aberta durante o ano de 1960.
Diante da pressão exercida sobre o Vaticano, com alguns desejando que a carta fosse aberta e divulgada ao mundo, e outros, supondo que ela possa conter profecias alarmantes, pedindo que sua publicação fosse suspensa, os mesmos círculos do Vaticano declaram que o Vaticano decidiu não tornar pública a carta da Irmã Lúcia e mantê-la rigorosamente lacrada.
A decisão do Vaticano baseia-se em vários motivos:
1. A Irmã Lúcia ainda está viva.
2. O Vaticano já conhece o conteúdo da carta.
3. Embora a Igreja reconheça as aparições de Fátima, não se compromete a garantir a veracidade das palavras que os três pastorinhos afirmam ter ouvido de Nossa Senhora.
Nestas circunstâncias, é muito provável que o Segredo de Fátima permaneça, para sempre, sob absoluto sigilo.
Como se pode notar, há imprecisões na nota. Afinal, o envelope já havia sido aberto e lido, e a notícia afirma ser “muito provável que a carta (...) nunca seja aberta” e que permanecerá “rigorosamente lacrada”. Há também uma ambiguidade na afirmação de que ela “só poderia ser aberta durante o ano de 1960”, que poderia ser compreendida, equivocadamente, como uma proibição de abertura em anos posteriores.
Chama a atenção a expressão: “a carta na qual a Irmã Lúcia anotou as palavras que Nossa Senhora confiou em segredo aos três pastorinhos na Cova da Iria”. Se não se tratar de mais uma imprecisão, ela indica que o Segredo é composto por palavras ditas por Nossa Senhora, uma informação relevante.
Apesar dessas ambiguidades e imprecisões, de fato, o que a notícia expôs sobre o propósito de não divulgar o Segredo acabou por se confirmar, e ele não foi tornado público naquele ano.
O Papa apresentou o conteúdo do Segredo a todos os líderes do Santo Ofício e da Secretaria de Estado, bem como aos seus colaboradores mais íntimos.
O Cardeal Cerejeira foi um deles, e confidenciou ao Padre Caillon:
“Papa João XXIII falou-me sobre ele vagamente, de forma distante, e eu entendi que se tratava de assuntos muito graves.”
As Divergências de Informações nos Pontificados Seguintes
Paulo VI foi eleito Papa em 21 de junho de 1963 e sua missa de inauguração de pontificado ocorreu no dia 29. Ainda nos primeiros dias como o Papa eleito, pediu a seus assessores que lhe trouxessem o Segredo. Há divergências quanto às datas da leitura do Segredo pelo Papa Paulo VI, que nunca o comentou.
Segundo uma nota do arcebispo Capovilla, o envelope do Segredo teria sido entregue ao Papa Paulo VI no dia 27 de junho de 1963. No dia seguinte, o Papa perguntou-lhe se João XXIII havia feito algum comentário a respeito do Segredo, o que indica que a leitura já havia sido realizada. Entretanto, quando a Terceira Parte do Segredo veio a ser tornada pública pelo Vaticano, a nota explicativa afirmava que o Papa Paulo VI o leu em 27 de março de 1965.
Nada se sabe sobre o contato do Papa João Paulo I com a Terceira Parte do Segredo, mas sabe-se que, em 1977, um ano antes de ser eleito para seu breve pontificado, teve uma longa conversa com a Irmã Lúcia.
Sobre o Papa João Paulo II, há também informações contraditórias. Uma delas afirma que ele leu o Segredo assim que assumiu a Santa Sé, em 1978; outra sustenta que somente o fez após sofrer o atentado de 13 de maio de 1981.
Em uma matéria de 14 de maio de 2000, o jornal Cape Cod Times noticiou:
O porta-voz do Vaticano, Joaquin Navarro-Valls, disse posteriormente aos jornalistas que João Paulo II havia lido o Segredo poucos dias após ser eleito pontífice em 1978.
Já o documento A Mensagem de Fátima, da Congregação para a Doutrina da Fé, relata, por outro lado, que São João Paulo II pediu para ler a Terceira Parte do Segredo traduzida somente após ter sofrido o atentado de 1981:
João Paulo II, por sua vez, pediu o envelope com a terceira parte do «segredo», após o atentado de 13 de Maio de 1981. Sua Eminência o Cardeal Franjo Seper, Prefeito da Congregação, a 18 de Julho de 1981 entregou a Sua Ex.cia Rev.ma D. Eduardo Martínez Somalo, Substituto da Secretaria de Estado, dois envelopes: um branco, com o texto original da Irmã Lúcia em língua portuguesa; outro cor-de-laranja, com a tradução do «segredo» em língua italiana. No dia 11 de Agosto seguinte, o Senhor D. Martínez Somalo devolveu os dois envelopes ao Arquivo do Santo Ofício.
Como é sabido, o Papa João Paulo II pensou imediatamente na consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria e compôs ele mesmo uma oração para o designado «Acto de Entrega», que seria celebrado na Basílica de Santa Maria Maior a 7 de Junho de 1981, solenidade de Pentecostes, dia escolhido para comemorar os 1600 anos do primeiro Concílio Constantinopolitano e os 1550 anos do Concílio de Éfeso.
Há uma contradição evidente no texto acima: se o Papa João Paulo II só recebeu o segredo em 18 de julho, não poderia ter composto, inspirado nele, o texto do Ato de Entrega celebrado em 7 de junho — mais de um mês antes da leitura.
O The New York Times, em 27 de junho de 2000, noticiou ainda que, segundo o arcebispo Bertone, essa ocasião no hospital teria sido, de fato, a primeira vez em que João Paulo II viu a Terceira Parte do Segredo:
O arcebispo Tarcisio Bertone, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, afirmou hoje que o Papa só viu o Terceiro Segredo, guardado nos arquivos da Congregação, depois do atentado de 1981, quando pediu que lhe fosse apresentado no hospital.
Essa contradição entre as informações levou Andrew M. Cesanek a suspeitar da existência de dois documentos distintos, o que explicaria as duas datas diferentes atribuídas à leitura feita pelo Papa João Paulo II.
O que se sabe da Terceira Parte do Segredo
Antes da publicação oficial da Terceira Parte do Segredo, ocorrida no ano 2000, algumas informações a seu respeito já haviam sido comentadas.
O Pe. Schweigl esteve com a Irmã Lúcia em 2 de setembro de 1952, autorizado pelo Santo Ofício, para lhe fazer um interrogatório a respeito da Consagração da Rússia. Quando, após a conversa, foi questionado por um colega sobre o Segredo, respondeu:
“Não posso revelar nada do que aprendi em Fátima sobre o terceiro Segredo, mas posso dizer que ele tem duas partes: uma diz respeito ao Papa; a outra, logicamente — embora eu não deva dizer nada —, teria de ser a continuação das palavras: ‘Em Portugal, o dogma da Fé será sempre preservado.’”
O cardeal Mario Luigi Ciappi, teólogo pessoal de cinco pontífices entre 1955 e 1989, disse, em 1995, ao professor Baumgartner:
“O Terceiro Segredo prevê, entre outras coisas, que uma grande apostasia na Igreja começará de cima.”
Na revista alemã Stimme des Glaubens, em outubro de 1981, foi publicada uma conversa com o Papa João Paulo II, na qual lhe haviam perguntado, em novembro de 1980, sobre o Segredo. Sua resposta foi:
“Dada a seriedade dos conteúdos, meus predecessores na Sede Petrina preferiram diplomaticamente adiar sua publicação, para assim não encorajar o poder mundial do comunismo a fazer certos movimentos.
De outra forma, deve ser suficiente para todos os cristãos saber disto: se lá estiver uma mensagem em que está escrito que os oceanos inundarão áreas inteiras da Terra e que, de um momento para o outro, milhões de pessoas perecerão, a verdade é que a publicação dessa mensagem deiaria de ser algo muito desejável.”
A expressão “se lá estiver uma mensagem” é ambígua, pois pode tanto dar a impressão de que o Papa ainda não havia lido a mensagem quanto sugerir que nela há, de fato, algo de gravidade equivalente a tais catástrofes.
O padre Alonso, que via a Irmã Lúcia com frequência e pôde interrogá-la várias vezes, emitiu a seguinte opinião, em 1976, sobre o Segredo:
“É bem possível que o texto inédito não se refira apenas a uma verdadeira crise de fé na Igreja durante esse período de transição, mas, que como o segredo de La Salette, por exemplo, contenha referências mais concretas a lutas internas entre católicos; às deficiências de sacerdotes e religiosos; e talvez sejam insinuadas deficiências inclusive na alta hierarquia da Igreja.
Aliás, nada disso é estranho a outras comunicações que a Irmã Lúcia tenha tido sobre este assunto.”
Em 1982, o padre Alonso trouxe-nos outro comentário importante sobre o Segredo e sobre o motivo de ele não ter sido publicado:
“Uma revelação inoportuna do texto apenas teria exacerbado ainda mais as duas tendências que continuam a dilacerar a Igreja: um tradicionalismo que se consideraria amparado pelas profecias de Fátima e um progressismo que se voltaria contra essas aparições, que, de maneira tão escandalosa, pareceriam frear o progresso da Igreja conciliar... O Papa Paulo VI julgou oportuno e prudente adiar a revelação do texto para tempos melhores. O Papa João XXIII declarou que o texto não se referia ao seu pontificado... E os papas seguintes não consideraram que havia chegado o momento de levantar o véu do mistério, em circunstâncias nas quais a Igreja ainda não superou o impacto assustador desses vinte anos pós-conciliares, durante os quais a crise da fé se instalou em todos os níveis.”
Essas declarações, juntamente com a do Papa João Paulo II, confirmam que havia um grande receio de que o conteúdo do Segredo, se exposto, pudesse ser instrumentalizado no debate público sobre a crise da Igreja, e inclusive agravá-la.
O Irmão Michel de la Sainte Trinité, em sua obra The Whole Truth About Fatima - Vol. III, de 1985, relatou que uma fonte de sua confiança questionou a Irmã Lúcia sobre o último segredo e obteve dela a seguinte resposta:
“Está no Evangelho e no Apocalipse, leiam-nos!” Sabemos até que, um dia, ela indicou os capítulos 8 a 13.
A informação traz-nos um elemento novo e relevante: os livros citados tratam da já mencionada apostasia, mas, além disso, vinculam-na ao período da Tribulação do Anticristo.
Nos capítulos citados, caem sobre a Terra saraiva, fogo e uma grande estrela. O ar se obscurece e gafanhotos monstruosos atacam os ímpios. Anjos são soltos para exterminar a terça parte dos homens. Surgem as duas testemunhas para enfrentar o Anticristo. No céu, aparece uma mulher revestida do sol. Satanás surge em forma de dragão e derruba um terço das estrelas do céu — o que se interpreta como uma apostasia na alta hierarquia da Igreja. Aparecem, então, as duas bestas: o Falso Profeta e o Anticristo, e este instaura a sua marca.
Em uma entrevista de 15 de agosto de 1984 ao jornalista Vittorio Messori, soube-se que o cardeal Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e futuro Papa Bento XVI, já havia lido o trecho final do Segredo. Perguntado sobre o motivo de o segredo não ter sido divulgado, o então cardeal explicou:
“Porque, segundo o juízo dos papas, nada acrescenta ao que um cristão já deve saber pela revelação: um apelo radical à conversão, a absoluta gravidade da história, os perigos que ameaçam a fé e a vida do cristão e, portanto, o mundo. E também a importância dos ‘últimos tempos’... Todavia, os conteúdos deste Terceiro Segredo correspondem ao que é anunciado nas Escrituras e são confirmados por muitas outras aparições marianas, a começar pelas próprias aparições de Fátima, naquilo que é conhecido.”
Ratzinger trouxe-nos informações importantes nesse relato. O vínculo da mensagem de Fátima com os últimos tempos confirma a interpretação de que ela trata da apostasia do período do Anticristo. Já a referência a outras aparições marianas pode remeter às graves mensagens de Nossa Senhora em La Salette e Akita, nas quais foram anunciadas uma crise de fé dentro da própria Igreja, assim como uma grande tribulação que deixaria muitos mortos. No caso de La Salette, esse castigo também está explicitamente vinculado ao período do Anticristo.
O Pe. Malachi Martin, em 1960, enquanto era secretário do cardeal Bea, leu a Terceira Parte do Segredo. Em uma entrevista de 1997, ele disse:
“Então a Rússia está dentro do plano. Por quê? Isso me levaria muito longe nos segredos papais, no porquê de a Rússia e Kiev estarem envolvidas nisso. Mas estão; são peças fundamentais. É pura e simplesmente a escolha de Deus, assim como Ele escolheu os judeus para, através deles, trazer Seu Filho ao mundo. Ele faz escolhas. Tem Suas soluções favoritas para as coisas. Eu não teria escolhido os russos, Kiev ou o Oriente para a salvação, mas a salvação, para todos nós, surgirá do Oriente.”
A menção a Kiev, capital da Ucrânia, é uma novidade exclusiva trazida pelo Pe. Martin, não confirmada por nenhum outro relato. Entretanto, essa passagem pode ter sido o que motivou o Papa Francisco a realizar a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria e a incluir, no mesmo ato, também a consagração da Ucrânia, em 25 de março de 2022.
Em uma entrevista de 1998 no programa de rádio de Art Bell, Pe. Martin afirmou também que as palavras de Nossa Senhora eram secas e específicas; que algo muito relevante para os Estados Unidos é mencionado no Segredo; que o elemento central do Segredo é terrível e diz respeito à apostasia; e que o texto se assemelhava a uma citação feita por um ouvinte sobre um papa que estaria sob o controle de Satanás.
A grave informação do Pe. Malachi Martin pode ser confirmada por uma entrevista de Howard Dee, ex-embaixador das Filipinas no Vaticano, à revista Inside the Vatican, em novembro de 1998. Dee relatou que o cardeal Ratzinger lhe havia dito pessoalmente que as mensagens de Akita e Fátima são essencialmente as mesmas. Em Akita, no dia 13 de outubro de 1973, aniversário da última mensagem de Fátima, Nossa Senhora profetizou uma grave crise na Igreja, causada por infiltração diabólica, que teria como resultado uma divisão no clero, inclusive entre cardeais. Na mesma mensagem, foi anunciado também um castigo no qual fogo cairia do céu e destruiria parte da humanidade.
Além dos relatos aqui citados, há ainda outros que repetem e confirmam as informações já apresentadas, mas que não serão tratados para não estender demais o estudo.
O Segredo Publicado
A Terceira Parte do Segredo foi tornada pública em 26 de junho de 2000 através do documento A Mensagem de Fátima, assinado pelo arcebispo Tarcisio Bertone, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé. O conteúdo do Segredo publicado, escrito pela Irmã Lúcia em 3 de janeiro de 1944, diz o seguinte:
Depois das duas partes que já expus, vimos, ao lado esquerdo de Nossa Senhora, um pouco mais alto, um Anjo com uma espada de fogo na mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que parecia que iam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que, da mão direita, expedia Nossa Senhora ao seu encontro. O Anjo, apontando com a mão direita para a terra, com voz forte, disse:
— Penitência, Penitência, Penitência!
E vimos, numa luz imensa que é Deus: “algo semelhante a como se vêem as pessoas em um espelho quando lhe passam por diante”, um Bispo vestido de Branco, “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre”. Vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas a subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos, como se fora de sobreiro com a casca. O Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meio em ruínas e, meio trêmulo, com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho. Chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz, foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas. E assim, mesmo, foram morrendo uns trás outros os Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas, e várias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de várias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz, estavam dois Anjos, cada um com um regador de cristal na mão. Neles, recolhiam o sangue dos Mártires e, com ele, regavam as almas que se aproximavam de Deus.
Houve a interpretação de que o Papa que cai morto na visão seria o Papa João Paulo II, que sofreu um atentado no dia de Nossa Senhora de Fátima. No caso, ele teria sobrevivido porque as pessoas rezaram o suficiente para o castigo ser mitigado. Essa é uma interpretação legítima, mas não é a única. É possível, também, que aquele atentado tenha sido uma prefiguração de outra tragédia que ainda virá a acontecer, com uma consequência mais grave, se não rezarmos o bastante.
A possibilidade de haver outras interpretações foi afirmada pelo próprio cardeal Ratzinger na matéria do The New York Times de 27 de junho de 2000:
“Não é intenção da igreja impor uma única interpretação.”
O mesmo Ratzinger, agora como Papa Bento XVI, repetiu esse entendimento anos depois, em 13 de maio de 2010, ao dizer:
“Quem pensa que a missão profética de Fátima está concluída engana-se a si mesmo.”
Portanto, os fiéis são livres para meditar sobre as mensagens de Nossa Senhora e sobre a possível realização dessas profecias.
Como se pode perceber, o conteúdo do Segredo publicado não confirmou muitas das expectativas que se tinha sobre ele, o que acabou gerando grande desconfiança e crítica.
Comentários de Mons. Capovilla
No documento A Mensagem de Fátima, é dito que o Segredo foi aberto e lido pelo Papa Paulo VI em 27 de março de 1965; entretanto, em uma nota de Mons. Capovilla, o texto teria sido lido no dia 27 de junho de 1963.
No livro The Fourth Secret of Fatima, de Antonio Socci, publicado em 2006, foi relatada uma conversa telefônica entre o jornalista Solideo Paolini e Monsenhor Capovilla, realizada em 18 de julho de 2006, na qual as duas datas divergentes foram questionadas:
O estudioso conta que, após alguns cumprimentos, “chamei sua atenção para o contraste entre as suas ‘notas confidenciais’ e o que é afirmado em A Mensagem de Fátima, publicação para a qual ele próprio me havia direcionado. Ele respondeu: ‘Ah, mas eu falei a verdade. Veja bem, ainda estou lúcido!’ ‘Meu Deus, Excelência, mas como explicar esta evidente discrepância?’
Neste ponto ele respondeu com considerações que pareciam referir-se a eventuais lapsos de memória, a interpretações do que ele havia pretendido dizer, ao fato de que não estamos falando de Sagrada Escritura... Eu objetei: ‘Sim, Excelência, mas a minha referência é a um texto escrito claro [o documento oficial do Vaticano, ou seja, A Mensagem de Fátima], que por sua vez se baseia nas notas do Arquivo!’ Monsenhor Capovilla: ‘Mas eu estou certo; talvez o envelope de Bertone não seja o mesmo que o envelope de Capovilla...’
Imediatamente eu o interrompi: ‘Portanto, ambas as datas estão corretas porque existem dois textos do Terceiro Segredo?’ Houve então uma breve pausa de silêncio. Em seguida, Monsenhor Capovilla respondeu: ‘Precisamente!’”
Considerando que Capovilla foi assessor do Papa João XXIII e que fora uma das testemunhas da ocasião em que o Segredo foi aberto pela primeira vez, suas palavras constituem uma confirmação grave e confiável para a hipótese de haver duas versões do segredo. Entretanto, como foi utilizada a expressão “talvez o envelope (...) não seja o mesmo”, observa-se que a fala do arcebispo não constitui uma afirmação, mas uma especulação.
Mons. Capovilla foi questionado novamente pela EWTN News em uma matéria de 12 de setembro de 2007. Desta vez, seu depoimento foi:
“Não existem duas verdades de Fátima, nem um quarto segredo. O texto que li em 1959 é o mesmo que foi distribuído pelo Vaticano”, disse o arcebispo Capovilla. “Já chega dessas teorias da conspiração. Simplesmente não é verdade. Eu li, apresentei ao Papa e selamos o envelope novamente.”
Seria possível questionar alguma dessas entrevistas, alegando que uma delas atribui ao arcebispo palavras que ele não disse. Entretanto, o mais provável é que Capovilla realmente não soubesse da existência de duas versões do Segredo e que, diante das divergências expostas por Paolini, tenha concluído que essa possibilidade seria uma explicação plausível. Nesse caso, a segunda versão teria sido ocultada também de Capovilla.
Agravando a polêmica, no dia 21 de setembro de 2007, o pesquisador Antonio Socci expôs a um grupo de jornalistas um áudio do arcebispo Capovilla, de 21 de junho de 2007, no qual este afirmava que, junto às quatro páginas do Segredo, haveria também um anexo.
Somando-se todas essas informações, é possível concluir que, se existe uma segunda versão do Segredo, e Capovilla não a conhecia como tal, ela foi guardada separadamente, como uma simples carta anexa e confidencial da Irmã Lúcia ao Papa.
Os Quatro Envelopes
Há, ainda, outra questão que envolve o texto revelado. Em 2007, após os questionamentos se multiplicarem, o cardeal Bertone apareceu em uma transmissão televisiva para mostrar os documentos originais do Segredo. Enquanto ia abrindo envelopes e retirando deles seus conteúdos, comentava cada um deles. Mostrando o primeiro, disse:
“E agora vemos o envelope branco, um primeiro envelope maior com a escrita de José, Bispo de Leiria. É um envelope que contém a escrita do Bispo de Leiria e que contém o outro envelope, autêntico, com o Terceiro Segredo. Um envelope com selo. Abro este envelope...”
Após retirar de dentro do primeiro um segundo envelope, disse:
“....e retiro outro envelope de cor amarelada, já com a caligrafia da Irmã Lúcia: ‘Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom José Alves da Silva, Bispo de Leiria.’ Este está sem selo, porque foi colocado no grande envelope selado.”
Após retirar de dentro do segundo um terceiro envelope, disse:
“Outro envelope com os selos e com a escrita autêntica da Irmã Lúcia, onde fala do ano 1960. Aqui: ‘Por ordem expressa de Nossa Senhora, este envelope só pode ser aberto em 1960 por Sua Eminência o Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa ou por Sua Excelência Reverendíssima o Senhor Bispo de Leiria.’ Abro ainda este envelope...”
Após retirar de dentro do terceiro um quarto envelope, disse:
“...e aqui, finalmente, o pequeno envelope que tem 9 cm, como escreveram diversos autores, por 14 cm. O pequeno envelope repete as palavras que já lemos: ‘Por ordem de Nossa Senhora...’ e contém, aqui, a folha única autêntica na qual está contido o Terceiro Segredo.”
Mostrando uma folha com marcas de dobras, foi possível compreender que as quatro páginas do segredo foram escritas em uma única folha dobrada ao meio. Pareciam ser as mesmas folhas do caderno em que Irmã Lúcia escrevia seu diário, embora não fossem visíveis marcas de encadernação.
Até então, sabia-se de apenas dois envelopes: o da Irmã Lúcia, selado, que foi o último apresentado na entrevista, e o do bispo de Leiria, o primeiro apresentado. Na entrevista, entretanto, foram apresentados quatro envelopes, sendo três com a caligrafia da vidente: um sem selo, outro com selo, e o último, ao que tudo indica, também selado, pois é referido como aquele do qual “escreveram diversos autores”, e que se sabia ter recebido um selo. Os dois envelopes selados contêm as mesmas instruções para que não fossem abertos antes de 1960.
A existência de dois envelopes selados e com a mesma instrução escrita pela Irmã Lúcia constitui, enfim, uma evidência concreta de que ela escreveu duas versões do Segredo.
O propósito deste estudo não é contestar a credibilidade de Dom Bertone. Se o cardeal fizesse parte de uma conspiração que quisesse esconder uma versão do Segredo, teria ocultado também o envelope dos três selos, cuja existência era desconhecida do público e que é a maior das evidências da hipótese das duas versões. O fato de tê-lo exposto é sinal de que ele acredita, sinceramente, que o Segredo havia sido colocado em um envelope dentro de outro, e este dentro de um terceiro, e este dentro de um quarto. Se houve, realmente, uma conspiração para esconder o Segredo, Dom Bertone deve ter sido uma das vítimas, e não um dos conspiradores.
Outra informação relevante foi publicada em 2013 pelo Carmelo de Coimbra, na obra Um Caminho sob o Olhar de Maria. O envelope do segredo escrito no dia 3 de janeiro fora lacrado com um pequeno selo do tipo antigo, semelhante a uma cola que endurece ao secar, reutilizado de cartas que estavam sendo descartadas. O selo foi referido pela vidente como “uma migalha tão pequena” que, aos olhos de sua superiora, não serviria para nada. Nas palavras da própria vidente:
Na verdade, o pedacinho era tão pequeno que, para derretê-lo, tive que pegá-lo com as pontas dos alicates.
Este só pode ser o último envelope apresentado por Dom Bertone, já que o penúltimo tinha, visivelmente, três grandes selos. Era visível, também, que o penúltimo envelope não fora aberto forçando-se a parte selada, mas cortando-se seu topo — portanto, aqueles eram ainda os selos originais.
O segundo envelope mostrado no vídeo, sem selo e com a caligrafia de Irmã Lúcia indicando o destinatário “Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom José Alves da Silva, Bispo de Leiria”, também não havia sido citado antes do ano 2000. A segunda versão do Segredo, desconhecida até agora, poderia ter sido entregue ao bispo dentro deste envelope sem selo, enquanto a primeira versão havia sido entregue dentro de um caderno, como se sabe.
Comentário da Irmã Lúcia
No documento A Mensagem de Fátima, junto à revelação oficial da Terceira Parte do Segredo, o Vaticano expôs também uma carta da Irmã Lúcia, datada de 12 de maio de 1982, na qual ela a comentava ao Papa:
A terceira parte do segredo refere-se às palavras de Nossa Senhora: “Se não, [a Rússia] espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas” (13-VII-1917).
A terceira parte do segredo é uma revelação simbólica, que se refere a este trecho da Mensagem, condicionada ao fato de aceitarmos ou não o que a Mensagem nos pede: “Se atenderem a meus pedidos, a Rússia converter-se-á e terão paz; se não, espalhará os seus erros pelo mundo, etc”.
Porque não temos atendido a este apelo da Mensagem, verificamos que ela se tem cumprido, a Rússia foi invadindo o mundo com os seus erros. E se não vemos ainda, como facto consumado, o final desta profecia, vemos que para aí caminhamos a passos largos. Se não recuarmos no caminho do pecado, do ódio, da vingança, da injustiça atropelando os direitos da pessoa humana, da imoralidade e da violência, etc.
A Irmã Lúcia ressalta o trecho final da profecia, segundo o qual “várias nações serão aniquiladas”. No texto publicado, porém, não há nada que remeta diretamente à aniquilação de nações, já que as chamas que pareciam incendiar o mundo apagavam-se ao tocar o brilho da Virgem Maria, sem atingir ninguém. Por outro lado, pode ser que essas nações aniquiladas estejam simbolizadas pelas pessoas seculares de várias classes e posições que caíam mortas e eram chamadas de mártires.
Onde ficava guardado o Segredo
Outra discrepância diz respeito ao local onde o Segredo permaneceu guardado inicialmente. O investigador Irmão Michel de la Sainte Trinité comentou, em sua obra The Whole Truth About Fatima – Vol. III, de 1985:
Com efeito, ao contrário do que é sugerido pelas declarações do cardeal Ottaviani em 1967, sabemos agora que o precioso envelope enviado a Roma por Mons. Cento não foi colocado nos arquivos do Santo Ofício, mas que Pio XII quis guardá-lo em seu próprio apartamento.
Na nota de Capovilla em que ficou registrado o contato de Paulo VI com o Segredo que se deu em 27 de junho de 1963, consta que lhe contataram para perguntar onde estava guardado o envelope. Como era a primeira semana de pontificado de Paulo VI, que ainda nem havia se instalado oficialmente, este ainda não sabia onde o Papa anterior havia guardado o documento. A resposta de Capovilla foi:
“Estava na gaveta do lado direito da escrivaninha chamada ‘Barbarigo’, no quarto [do Papa].”
Por outro lado, o documento A Mensagem de Fátima afirma:
Para se tutelar melhor o «segredo», no dia 4 de Abril de 1957 o envelope foi entregue ao Arquivo Secreto do Santo Ofício. Disto mesmo, foi avisada a Irmã Lúcia pelo Bispo de Leiria.
Segundo apontamentos do Arquivo, no dia 17 de Agosto de 1959 e de acordo com Sua Eminência o Cardeal Alfredo Ottaviani, o Comissário do Santo Ofício, Padre Pierre Paul Philippe OP, levou a João XXIII o envelope com a terceira parte do «segredo de Fátima». Sua Santidade, «depois de alguma hesitação», disse: «Aguardemos. Rezarei. Far-lhe-ei saber o que decidi».
Na realidade, a decisão do Papa João XXIII foi enviar de novo o envelope selado para o Santo Ofício e não revelar a terceira parte do «segredo».
Paulo VI leu o conteúdo com o Substituto da Secretaria de Estado, Sua Ex.cia Rev.ma D. Ângelo Dell'Acqua, a 27 de Março de 1965, e mandou novamente o envelope para o Arquivo do Santo Ofício, com a decisão de não publicar o texto.
Segundo o documento, portanto, o Segredo ali exposto permanecia guardado no Arquivo Secreto do Santo Ofício e era de lá retirado quando um Papa desejava lê-lo. A divergência entre as informações poderia ser explicada considerando-se que o Arquivo Secreto do Santo Ofício tivesse um cofre separado do acervo principal e estabelecido dentro do apartamento papal. Entretanto, as expressões utilizadas no texto acima afastam essa interpretação, pois indicam claramente que o documento era levado de um lugar a outro por intermediários, algo que não seria necessário se ele permanecesse no aposento do Papa, ao seu livre acesso, seja no cofre, seja na gaveta da escrivaninha.
Por conta de mais essa divergência, alguns investigadores interpretam que, ao menos no período inicial, um dos documentos do Segredo permanecia com o Papa, em seu aposento, enquanto o outro ficava no Arquivo Secreto do Santo Ofício.
É possível, então, que o texto não divulgado ficasse no aposento do Papa enquanto o divulgado ficava no Arquivo Secreto do Santo Ofício.
O que se sabia antes da divulgação do Segredo
Antes da divulgação do Segredo, sabia-se que ele:
tem um conteúdo que ficaria mais claro em 1960;
fala de algo com a mesma gravidade que a morte de milhões de pessoas;
fala de uma grave apostasia a partir do topo da hierarquia eclesiástica;
poderia ser instrumentalizado pelos inimigos da Igreja;
foi escrito em uma única página;
contém entre 20 e 30 linhas;
contém palavras de Nossa Senhora;
menciona Kiev;
chegou a Roma em 16 de abril de 1957;
era um envelope selado dentro de outro envelope;
era guardado no aposento do Papa;
foi lido pelo Papa Paulo VI, pela primeira vez, em 1963;
foi lido pelo Papa João Paulo II, pela primeira vez, em 1978;
divide-se em duas partes;
fala do Papa;
foi escrito entre 2 e 9 de janeiro de 1944.
O que se ficou sabendo com a divulgação
O Segredo revelado, por sua vez:
não tem um conteúdo que ficaria mais claro em 1960;
não fala de algo com a mesma gravidade que a morte de milhões de pessoas;
não fala de uma grave apostasia a partir do topo da hierarquia eclesiástica;
não fala de nada que poderia ser instrumentalizado pelos inimigos da Igreja;
não foi escrito em uma única página, mas em quatro;
não contém entre 20 e 30 linhas, mas 62;
não contém palavras de Nossa Senhora;
não menciona Kiev;
não chegou a Roma em 16 de abril de 1957, mas no dia 4 daquele mês;
não era um envelope selado dentro de outro envelope, mas uma composição de quatro envelopes;
não era guardado no aposento do Papa, mas no Arquivo Secreto do Santo Ofício;
não foi lido pelo Papa Paulo VI, pela primeira vez, em 1963, mas em 1965;
não foi lido pelo Papa João Paulo II, pela primeira vez, em 1978, mas em 1981;
de fato, divide-se em duas partes;
de fato, fala do Papa;
de fato, foi escrito no dia 3 de janeiro de 1944.
Das dezesseis informações que se sabia a respeito do Segredo, apenas três foram confirmadas pela versão divulgada. Infelizmente, a falta de explicações para as outras treze divergências acabou criando um clima de desconfiança dentro da Igreja.
Uma Revelação Vinculada ao Segredo
Há ainda uma revelação, publicada pela primeira vez em 2013, intimamente vinculada ao Segredo, que pode ajudar a esclarecer algum ponto. Ela foi recebida pela Irmã Lúcia no mesmo dia em que escreveu a versão do Segredo tornada pública pela Igreja. Em 3 de janeiro de 1944, quando tentou escrever a Terceira Parte do Segredo — após muitas tentativas frustradas —, a própria Irmã Lúcia relatou:
Enquanto esperava a resposta [do Bispo], no dia 3-1-1944, ajoelhei-me junto à cama que às vezes me servia de mesa para escrever e fiz novamente a prova, sem conseguir nada. O que mais me impressionava era que, naquele mesmo momento, eu podia escrever sem dificuldade qualquer outra coisa. Pedi então a Nossa Senhora que me fizesse conhecer qual era a Vontade de Deus. E dirigi-me à capela. Eram 4 horas da tarde, hora em que eu costumava ir fazer a visita ao Santíssimo, por ser a hora em que ordinariamente Ele está mais sozinho e, não sei por quê, eu me sinto mais à vontade a sós com Jesus no Sacrário. Aí me ajoelhei no centro, junto à grade do comungatório, e pedi a Jesus que me fizesse conhecer qual era a Sua Vontade. Acostumada, como estava, a crer que as ordens dos superiores são a expressão certa da Vontade de Deus, não podia acreditar que esta não o fosse. E perplexa, meio absorta, sob o peso de uma nuvem escura que parecia pender sobre mim, com o rosto entre as mãos, esperava, sem saber como, uma resposta. Senti então que uma mão amiga, carinhosa e maternal, me toca no ombro. Levanto os olhos e vejo a querida Mãe do Céu.
— Não temas. Quer Deus provar a tua obediência, fé e humildade. Fica em paz e escreve o que te mandam, mas não aquilo que te dei a entender do seu significado. Uma vez redigido, mete-o num envelope, data-o, lacra-o e escreve por fora que poderá ser aberto em 1960 pelo Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa ou pelo Senhor Bispo de Leiria.
E senti o espírito inundado por um mistério de luz que é Deus e N'Ele vi e ouvi, – A ponta da lança como chama que se desprende, toca o eixo da terra, – Ela estremece: montanhas, cidades, vilas e aldeias com os seus moradores são sepultados. O mar, os rios e as nuvens saem dos seus limites, transbordam, inundam e arrastam consigo num redemoinho, moradias e gente em número que não se pode contar, é a purificação do mundo pelo pecado em que se mergulha. O ódio, a ambição provocam a guerra destruidora! Depois senti no palpitar acelerado do coração e no meu espírito o eco duma voz suave que dizia: — No tempo, uma só Fé, um só Batismo, uma só Igreja, Santa, Católica, Apostólica. Na eternidade, o Céu! Esta palavra Céu encheu a minha alma de paz e felicidade, de tal forma que quase sem me dar conta, fiquei repetindo por muito tempo: — O Céu! O Céu! Apenas passou a maior força do sobrenatural, fui escrever e fi-lo sem dificuldade, no dia 3 de janeiro de 1944, de joelhos apoiada sobre a cama que me serviu de mesa.
Este relato é de grande importância. Nossa Senhora diz para a Irmã Lúcia escrever o Segredo conforme lhe foi ordenado, mas não aquilo que Ela lhe deu a entender sobre o significado da revelação. Portanto, a Terceira Parte do Segredo tem, com certeza, duas partes: uma é a descrição da visão, escrita naquela ocasião; a outra consiste naquilo que a Virgem explicou à Irmã Lúcia e que poderia ter sido registrado em outro momento.
Logo após receber a autorização e as instruções celestes, Irmã Lúcia teve a referida visão de uma chama em forma de lança tocando o eixo da Terra e causando grande destruição e mortandade. A cena poderia ser interpretada como um terrível meteoro.
Foi anunciada, ainda, uma guerra destruidora e, depois disso, um tempo em que o mundo terá uma só Fé, a da Igreja Católica. Essa passagem final infundiu na Irmã Lúcia a força necessária para escrever, após tantas tentativas frustradas, a mensagem do Segredo. Portanto, tudo indica que essa visão está diretamente relacionada ao próprio Segredo.
Especulação sobre o Conteúdo do Anexo
Assim como a revelação de 3 de janeiro de 1944 infundiu uma força espiritual na Irmã Lúcia, também pode ter-lhe infundido um novo entendimento. Portanto, nesse momento, a Irmã Lúcia pode ter tido uma compreensão melhor do Segredo, sem, contudo, a escrever, por ordem celeste. Essa nova compreensão, iluminada pela Virgem Maria, pode ter sido o conteúdo de uma carta posterior, tratada por uns como “anexo” e por outros como “outra versão do Segredo”.
Em algum momento posterior, portanto, a Irmã Lúcia deve ter recebido a autorização para escrever um novo documento, contendo a interpretação da visão e as palavras da Virgem Maria. Esse manuscrito pode ter sido lacrado no envelope de três selos e tratado como uma carta anexa ao Segredo, reservada apenas ao Papa. Por isso, teria permanecido guardado no aposento papal até o pontificado de João Paulo II. Após o atentado de 1981, teria sido separado de seus envelopes e transferido para outro local, do qual nada se sabe. Os envelopes dessa carta, por sua vez, teriam sido guardados junto ao Segredo que foi revelado, por algum motivo igualmente desconhecido.
As explicações contidas na carta anexa deviam detalhar a guerra destruidora, possivelmente iniciada por um confronto entre a Rússia e a Ucrânia. Junto desse conflito, viria uma lança de fogo, que talvez seja um meteoro ou apenas um símbolo do Castigo, e que causaria milhões de mortes.
Também seria mencionada uma grande apostasia a partir do topo da Igreja, e talvez até a figura do Anticristo. Isso foi entendido como algo alarmante e que poderia ser utilizado pelos inimigos do Papa, que o acusariam falsamente de exercer um pontificado ilegítimo ou de trabalhar para o Anticristo, tentando depô-lo.
Conclusão
Duas séries de documentações importantes ainda não foram publicadas e poderiam esclarecer as questões aqui levantadas. Uma é a obra do padre Joaquín Alonso, arquivista oficial de Fátima, chamada de Textos e Estudos Críticos de Fátima, composta por 24 volumes e contendo 5.396 documentos, concluída em 1975 e até agora sem autorização para publicação. A outra é o próprio Diário da Irmã Lúcia, chamado de O Meu Caminho, escrito ao longo de mais de seis décadas, também não publicado.
Enquanto isso, dadas todas as evidências aqui levantadas, podemos concluir que, de fato, é muito provável que o Segredo tenha sido escrito em duas ocasiões: uma contendo a visão, tornada pública, e outra contendo a explicação de Nossa Senhora, considerada um anexo.
A versão da visão teria sido escrita pela Irmã Lúcia em 3 de janeiro de 1944 e teria quatro páginas; a da explicação, em algum momento posterior, teria apenas uma página. Esta segunda versão deve ter sido redigida antes da segunda quinzena de março de 1957, quando se sabe que o Segredo foi entregue ao núncio em Lisboa. Como as mesmas palavras aparecem escritas nos dois envelopes, é muito provável que a Irmã as tenha reproduzido no segundo conforme as lia no primeiro, enquanto o tinha em sua frente.
Entretanto, a ausência de informações anteriores ao ano 2000 sobre a existência de duas versões pode indicar que a segunda não foi enviada juntamente com a primeira, mas em outra ocasião, por intermédio de algum mensageiro desconhecido. Isso explicaria a divergência entre as datas da chegada do Segredo a Roma: 4 de abril de 1957, segundo o cardeal Bertone, e 16 de abril, segundo o padre Alonso.
A versão de quatro páginas, lacrada com um pequeno selo, teria chegado a Roma em 4 de abril de 1957 e veio a ser tornada pública no ano 2000; a versão de uma página, lacrada com três grandes selos, teria chegado a Roma em 16 de abril de 1957 e ainda permaneceria guardada no Vaticano.
O objetivo desta investigação não é acusar qualquer Papa de ter faltado com a verdade, mas apontar os elementos que geraram confusão em torno do Segredo e procurar esclarecê-los. É possível, inclusive, que os últimos pontífices tenham sido precisamente vítimas dessa manobra. Pode-se imaginar que tenham sido induzidos por algum assessor — até agora desconhecido — a acreditar que existia apenas um documento a ser lido e apresentado, desprezando o segundo como um mero comentário.
Alguém poderia afirmar que as divergências entre as informações se explicam de modo simples: sempre houve um único documento, guardado dentro de quatro envelopes, e todos os que transmitiram dados que não se confirmaram diante do texto revelado estavam apenas equivocados. Entretanto, parece temerário e injusto atribuir erros graves ao trabalho sério de tantas pessoas de boa índole, cujos nomes permanecem conhecidos e respeitados.
Pode ser, ainda, que o Papa João Paulo II tenha considerado as duas versões como estando em pé de igualdade diante da instrução celeste de tornar público o seu conteúdo, e entendido que lhe caberia escolher qual delas divulgar, dando preferência a uma em detrimento da outra por alguma razão pastoral privada ou mesmo por seu entendimento do que seria mais prudente na política eclesiástica.
Seja qual for a resposta a essas questões, convém conservar sempre um espírito de caridade na interpretação das ações alheias, com benevolência ainda maior quando se trata das autoridades da Igreja.
De nada adianta acusar as autoridades que, em nosso entendimento, não deram ouvidos aos pedidos de Maria a respeito do Segredo, se nós mesmos não atendermos aos pedidos que Ela também nos dirigiu: rezar diariamente o Rosário e praticar a devoção da Comunhão Reparadora dos Cinco Primeiros Sábados. Só assim o mundo poderá contemplar a paz e o tão aguardado Triunfo do Imaculado Coração de Maria.
Bibliografia
Há dois manuscritos originais do Terceiro Segredo? - Andrew M. Cesanek, 2006
The Fourth Secret of Fatima - Antonio Socci, 2006.
La Verdad sobre el Secreto de Fatima - Fátima sin mitos - Pe. Joaquín María Alonso, 1976.
The Whole Truth About Fatima - Volume III - The Third Secret (1942-1960) - Brother Michel de la Sainte Trinité of the Little Brothers of the Sacred Heart, 1985.
Prophecies of Tragedy and Triumph - Frére François de Maria des Anges, 1994.
Ephemerides Mariologicae - De nuevo el Secreto de Fatima -Padre Joaquín Maria Alonso, 1982.
A Mensagem de Fátima - Congregação para a Doutrina da Fé, 2000.
Vatican official reveals third secret of Fatima - Cape Cod Times, 14/05/2000.
Vatican Issues Text of Third Secret of Fatima - The New York Times, 27/06/2000.
The Third Secret of Fatima: Has It Been Completely Revealed? - Periódico Catholic - Gerard Mura, Março de 2002. Em: The Devils Final Battle - Book 1 - Father Paul Kramer, 2002.
“Vittorio Messori fala com o Cardeal Joseph Ratzinger: Eis por que a fé está em crise”, Revista Jesus, novembro de 1984.
"The Tempter's Hour" - Malachi Martin e Bernard Janzen, 1997.
Published Testimony: Some Other Witnesses (1930’s - 2003) - The Fatima Network, 2004.
Bento XVI: "Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima estivesse concluída" - RTP Notícias, 13/05/2010.
Porta a Porta - RAI, 31/05/2007.
O segredo por revelar - Christopher A. Ferrara, 2008.
Un camino bajo la mirada de María - Biografia de Hermana Lucia, Carmelo de Coimbra, 2013.













Comentários