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O Segredo de La Salette nunca foi condenado

  • Foto do escritor: Lucas Gelásio
    Lucas Gelásio
  • 19 de set. de 2025
  • 26 min de leitura

Atualizado: 24 de set. de 2025


1. Introdução


Poucas revelações marianas foram envolvidas em tanta controvérsia quanto o Segredo de Nossa Senhora de La Salette, revelado pela Virgem à vidente Mélanie Calvat na aparição de 1846. Sua mensagem grave e impactante gerou amplos debates e movimentos céticos persecutórios. Ainda hoje, vários sites polemistas divulgam informações erradas sobre o tema. Todo esse movimento acabou silenciando a mensagem da Mãe de Deus Reconciliadora.


Os acusadores alegam que a Igreja teria condenado a versão mais longa do Segredo, publicada em 21 de novembro de 1878. Neste artigo, será explicada qual é a verdade por trás dessa história, para que seja possível compreender o que realmente foi condenado e o que não foi.


Se você quer conhecer as diferentes versões do segredo e o conteúdo de cada uma delas, leia meu artigo anterior sobre o tema, cujo título é “A Cronologia dos Eventos do Segredo de La Salette”.


1.1. O que há de polêmico no Segredo de La Salette?


Alguns trechos do Segredo geraram grande discussão e debate devido à gravidade das expressões e informações ali contidas. Os acusadores alegam que Nossa Senhora não as poderia ter dito, pelo horror que causam. Os trechos mais espantosos são estes dois:


  • Os sacerdotes, ministros do meu Filho, pela sua vida má, irreverência e impiedade na celebração dos santos mistérios, pelo amor ao dinheiro, à honraria e aos prazeres, tornaram-se cloacas de impureza.

  • Roma perderá a Fé e se tornará a sede do Anticristo.


Considerando que, no contexto da publicação do Segredo, os inimigos da Igreja a atacavam com forte anticlericalismo, muitos católicos entenderam que essas frases assemelhavam-se aos ataques dos revolucionários e poderiam ser usadas em favor das causas anticatólicas.


Outros fiéis entendiam que, apesar de realmente estarem em um contexto de perseguição anticlerical, as palavras da Virgem Maria alertavam sobre um problema real.


1.2. Quais são as acusações contra o Segredo de La Salette?


Os perseguidores da mensagem de Nossa Senhora de La Salette costumam fazer uma das seguintes acusações:


I. “A Igreja julgou que a versão longa do Segredo é falsa!”

II. “A Igreja julgou que a versão longa do Segredo é herética!”

III. “A versão longa do Segredo de La Salette foi condenada!”


Entretanto, quando nos aprofundamos nesse assunto, percebemos que nenhuma das alegações acima procede. No final deste artigo, cada acusação será respondida de forma resumida. Antes disso, alguns pontos precisam ser esclarecidos de forma mais detalhada.


Há também outras acusações paralelas, que servem para sustentar as acusações listadas acima, como:


I. "Mélanie adulterou o Segredo!"

II. "Mélanie passou a ter problemas mentais!"


A acusação de que a vidente teria adulterado o Segredo aponta as diferenças que há nos textos das três versões que ela escreveu. Para entender o motivo das diferenças, leia meu artigo já citado.


A acusação de que a vidente tinha problemas mentais é baseada nos relatos difamatórios de perseguidores da aparição. Por outro lado, há também muitas pessoas próximas da vidente a defenderam dessas acusações e deram bons testemunhos em seu favor. Entre os bons testemunhos, temos o de Santo Aníbal Maria Di Francia, que foi diretor espiritual da vidente e, após a morte dela, defendeu a sua beatificação.


Considerando que não há santos entre os detratores de Mélanie, mas há um que foi seu defensor — e que teve maior conhecimento sobre ela que seus difamadores —, é mais digna de crédito a versão da história que defende a santidade da vidente que a versão que a acusa de loucura.


1.3. A quem compete o juízo eclesiástico?


O juízo eclesiástico de presumíveis casos de aparições compete ao bispo ou ordinário local — em geral, costuma ser um bispo. Desde maio de 2024, antes que o juízo seja publicado, é obrigatório que ele seja enviado para a aprovação também do Dicastério para a Doutrina da Fé. Embora essa regra seja recente, tal modo de proceder já era adotado como um costume entre os membros do Clero há muitas décadas ou mesmo séculos.


A Santa Sé sempre pôde intervir caso discordasse das decisões do bispo. A intervenção poderia ser feita por meio de orientações e recomendações privadas, não configurando condenações formais, ou por meio de documentos condenatórios públicos em casos extremos. No período da polêmica em torno do Segredo, conforme veremos a seguir, as condenações da Santa Sé eram feitas pelo Santo Ofício e pela Sagrada Congregação do Índex.


Além da aprovação do bispo, sempre houve outros níveis de aprovações superiores, como as emissões de indulgências e as aprovações de solenidades dadas pelo Papa.


Atualmente, a orientação da Igreja é que as aprovações sejam emitidas pelo bispo, mas de comum acordo com o Dicastério para a Doutrina da Fé”, o que dá um caráter de aprovação dupla, emitida pelo bispo e pelo dicastério, evitando casos de discordância.


  1. Avaliações positivas


2.1. Quais foram as aprovações eclesiásticas da aparição de Nossa Senhora de La Salette?

A aparição recebeu diferentes formas de aprovação, assim como a publicação do Segredo. Confira a cronologia das aprovações:


  • Em 19 de setembro de 1851, a devoção à aparição de Nossa Senhora de La Salette foi aprovada pelo bispo, com a autorização do Papa Pio IX. Aprovou-se também a construção de um santuário.

  • Em 28 de agosto de 1852, o Papa concedeu aos membros da Confraria de Nossa Senhora de La Salette uma indulgência em Sua festa.

  • Em 2 de dezembro de 1852, o Papa concedeu que fosse solenizada a festa de aniversário da aparição em todos os dias 19 de setembro.

  • Em 10 de fevereiro de 1857, o Papa deu indulgências aos devotos de Nossa Senhora de La Salette.

  • Em 06 de agosto de 1867, o culto a Nossa Senhora de La Salette foi estabelecido publicamente em Roma.

  • A versão longa do Segredo, publicada inicialmente por Claude-Régis Girard, foi aprovada e abençoada pelo Papa Pio IX em 1872. Ainda havia breves trechos omitidos, que seriam revelados apenas na versão completa de 1878.

  • Em 12 de maio de 1877, a Santa Sé emitiu um decreto esclarecendo que a aparição de Nossa Senhora de La Salette não havia sido ainda aprovada pela Sé Apostólica, mas “permitida como digna de crença piedosa”.

  • Em 20 de agosto de 1879, foi realizada a coroação solene da imagem do Santuário de Nossa Senhora de La Salette, concedida pelo Papa. Neste momento, ele já tinha uma cópia do Segredo completo, em sua versão final.

  • Em 15 de novembro de 1879, o Segredo, em sua versão mais longa e completa, foi publicado com a aprovação do bispo Dom Zola, da diocese de Lecce, onde estava morando Mélanie. O texto havia sido finalizado no ano anterior, em 21 de novembro de 1878.

  • Membros importantes do Clero pronunciaram julgamentos favoráveis ao Segredo em sua versão de 1878: Dom Zola, Bispo de Lecce; Cardeal Consolini; Cardeal Guidi; Cardeal Xyste Riario Sforza, Arcebispo de Nápoles; Dom Mariano Ricciardi, Arcebispo de Sorrento; Dom Petagna, Bispo de Castellammare; e Cardeal Ferrieri.

  • Em 1 de fevereiro de 1909, o Papa São Pio X aprovou as constituições da Congregação dos Missionários de La Salette.

  • Em 13 de fevereiro de 2002, todas as versões do Segredo receberam a aprovação de Nihil Obstat de Dom Bernard Billet, da Abadia de Notre-Dame de Tournay.

  • Em 31 de março de 2002, todas as versões do Segredo receberam a aprovação de Imprimatur de Mons. Michel Dubost, Bispo de Evry.


2.2. Quais foram os comentários positivos feitos por Sumos Pontífices sobre o Segredo de La Salette?

O Segredo de La Salette, em sua versão longa, foi acessado e comentado por diferentes papas.


  • Em 3 de dezembro de 1878, o Papa Leão XIII recebeu Mélanie em audiência privada e a incentivou a divulgar a mensagem de Nossa Senhora de La Salette. Entende-se que, naquela ocasião, a vidente transmitiu-lhe o segredo completo, escrito em sua versão final poucos dias antes.

  • Em 27 de março de 1880, enquanto discutia o Segredo com Cardeal Ferrieri e Padre Fusco, Papa Leão XIII disse-lhes: “Este documento deve ser publicado”.

  • Em 28 de março de 1880, Cardeal Ledochowski, que havia revisado o livreto do Segredo antes de sua edição, recebeu no Vaticano o advogado Amédée Nicolas e pediu-lhe, em nome do Papa, que “escrevesse um livreto explicando todo o Segredo, para que o público o compreendesse bem.” A obra foi escrita e jamais foi condenada.

  • Em 2 de abril de 1918, Jacques Maritain apresentou ao Papa Bento XV um estudo sobre o decreto de 1915 que proibia novas publicações de comentários sobre o Segredo de La Salette. O Papa disse-lhe: “O Segredo deve ser, em essência, de origem divina.”


  1. Avaliações negativas


3.1. O que recebeu intervenção pastoral?

Devido à polêmica que surgiu em torno do Segredo, autoridades eclesiásticas decidiram também intervir.


  • Em 26 de fevereiro de 1880, o Santo Ofício decidiu pedir, por carta, que Dom Zola, bispo de Lecce, parasse de distribuir o opúsculo com o Segredo de Mélanie e prestasse algumas satisfações.

  • Em 2 de junho de 1880, o Santo Ofício decidiu pedir, por carta, que Dom Zola se afastasse de Mélanie e não permitisse que ela saísse de sua Diocese. Explicou que o opúsculo causou apreensões e que seria examinado. Entretanto, Mélanie agora estava já na Diocese de Castellamare, não mais sob a jurisdição de Dom Zola.

  • Em 3 de agosto de 1880, o Santo Ofício decidiu pedir, por carta, que Dom Sarnelli, Bispo de Castellamare, proibisse Mélanie de comentar e de escrever novos panfletos sobre o Segredo.

  • Após receber uma falsa denúncia, o Santo Ofício, em 16 de fevereiro de 1881, decidiu enviar uma carta a Dom Zola cobrando satisfações pela sua aparente desobediência. Em resposta, o bispo provou que não havia desobedecido nenhuma ordem.

  • Ainda em 16 de fevereiro de 1881, o Santo Ofício decidiu enviar uma carta a Dom Sarnelli, Bispo de Castellamare, instruindo-lhe que novamente ordenasse Mélanie a não voltar a publicar o Segredo, ameaçando-a de punição.


Em termos eclesiásticos, essas intervenções não configuram uma condenação formal contra a publicação do Segredo. Elas são, na verdade, apenas diretrizes pastorais dirigidas aos envolvidos. Seu objetivo era minimizar a polêmica que surgira em torno do Segredo e, restringindo a divulgação da revelação, evitar também perseguições feitas por inimigos da Igreja que a ridicularizavam. O esclarecimento das medidas pode ser encontrado na Acta Sanctae Sedis XXX (1897-98):


Por esta razão, deve-se dizer que o Sumo Pontífice, por meio deste estatuto [Officiorum ac Munerum], quis conter aquela desenfreada mania de publicar qualquer coisa sobre o sobrenatural, seja verdadeira, seja considerada verdadeira; do que resulta que os inimigos da religião católica ridicularizem e desprezem até mesmo os fenômenos sobrenaturais mais bem comprovados; e a autoridade eclesiástica, muitas vezes, se vê compelida a reprimir ou condenar abertamente tais coisas, como é evidente pelo que a Suprema Inquisição fez contra o Segredo que Mélanie Calvat afirmou ter recebido da Bem-Aventurada Virgem Maria no monte de La Salette no dia 19 de setembro de 1846, cujos exemplares foram suprimidos. Também pelo que fez contra visões, revelações e profecias que se divulgavam em toda parte na Paróquia de Loigny, na Diocese de Chartres, que os Supremos Inquisidores chamaram em decreto emitido no dia 15 de abril de 1895 de "delírios inacreditáveis", e cujos autores e cúmplices foram excomungados por decreto emitido no dia 4 de julho de 1894, além de outras.


Esse comentário mostra claramente a diferença entre algo que foi reprimido, como o caso de La Salette, e algo que foi condenado, como o caso de Loigny. O Segredo publicado por Mélanie apenas teve seus exemplares suprimidos, enquanto outras revelações da época foram condenadas com palavras duras e seus autores excomungados.


3.2. O que foi erroneamente divulgado como condenação?

Perseguidores de La Salette costumam apontar alguns registros históricos como condenações, embora não sejam. Eis alguns deles:


  • Em 26 de julho e 3 de agosto de 1880, alguns consultores do Santo Ofício escreveram pareceres negativos contra o Segredo publicado em 1879. No primeiro parecer, consta a afirmação: “as revelações de Melanie que são impressas e difundidas por toda parte não podem ser consideradas autênticas ou sãs do ponto de vista doutrinal.” Entretanto, esses pareceres são apenas as opiniões de um grupo minoritário de consultores, enquanto outras autoridades eclesiásticas tinham opiniões divergentes. Os pareceres não foram formalizados como condenações.

  • Em 14 de agosto de 1880, Card. Caterini, Secretário do Santo Ofício, escreveu uma carta a Dom Cortet, Bispo de Troyes, dizendo que a Santa Sé não ficou satisfeita com a publicação do Segredo de La Salette e que sua vontade era a de retirar os exemplares das mãos dos fiéis. A carta foi apresentada no periódico Semaine Religieuse como uma condenação formal contra o Segredo, embora não fosse. Houve acusações de que o texto dessa publicação do periódico havia sido manipulado, pois os editores teriam traduzido a carta de forma tendenciosa e subtraído do texto original uma frase que era favorável ao Segredo. A acusação da remoção da frase aumentou a polêmica, pois houve também quem a contestasse e dissesse que a carta foi publicada na íntegra. Também houve quem dissesse que a carta não retratava a realidade, pois a Santa Sé não teria o posicionamento nela relatado. Posteriormente, o secretário de Caterini pediu desculpas ao bispo Dom Zola pela carta escrita. Falaremos novamente desse episódio ao longo do artigo.


Portanto, em ambos os casos, não houve uma condenação formal ao conteúdo do Segredo de La Salette. No primeiro caso, houve a opinião de consultores; no segundo, uma intervenção pastoral que foi anunciada pelo periódico como uma condenação.


  1. O que recebeu condenação formal?


I. A condenação da revista mensal de Pe. Ernest Rigaud

Em 11 de dezembro de 1910, o jornal L'Osservatore Romano publicou uma condenação do Santo Ofício ao Pe. Ernest Rigaud por publicar a revista mensal “Annales mensuelles des Croisés de Marie et des apôtres des derniers temps” sem aprovação eclesiástica e contendo milagres e profecias “relatados de forma extremamente incorreta e insultuosa.”


A condenação foi contestada pelo padre, mas confirmada pelo Cardeal Merry del Val, secretário do Santo Ofício, em 30 de janeiro de 1911. Em 18 de fevereiro, Mons. Renouard, bispo de Limoges, suspendeu o sacerdote e proibiu-o de publicar novamente a revista. Em 26 de maio, proibiu-o também de celebrar a missa. Pe. Rigaud continuou agindo em desobediência, até que recebeu uma advertência do Papa São Pio X em 1º de julho daquele ano.


O escritor costumava abordar o Segredo de La Salette em sua revista condenada. Por conta disso, os perseguidores da mensagem apontaram essa sequência de condenações como provas de uma censura contra o Segredo, embora as medidas tenham sido tomadas exclusivamente contra a postura do sacerdote e de particularidades de sua obra, que nunca foi colocada no Índex, mas apenas teve sua continuidade encerrada.


II. A condenação do livro de 1894 de Pe. Combe

Em 7 de junho de 1901, foi condenado no Índex de Livros Proibidos a obra “Le grand coup avec sa date probable”, publicada em 1894 pelo Pe. Combe, diocese de Moulins.


A obra continha o texto do segredo junto a comentários do autor, comparações com outras profecias de santos e místicos e interpretações pessoais a partir de acontecimentos históricos. O principal objetivo do autor, nesta obra, era demonstrar que o grande golpe profetizado pela Virgem Maria aconteceria em 20 de setembro de 1896, interpretação que não se mostrou correta. Além disso, a publicação foi concretizada sem a necessária aprovação eclesiástica.


A condenação foi publicada na Acta Sanctae Sedis XXXIII (1900-901) com as seguintes palavras:


A Sagrada Congregação (...) condenou e condena, proscreveu e proscreve, e ordenou e ordena que sejam incluídas no Índex de livros proibidos as seguintes obras:

Em. Combe — Le grand coup avec sa date probable, c'està-dire le grand châtiment du monde et le triomphe universel de l'Eglise. — Etude sur le secret de la Salette. 3. édit. augmentée de la brochure de Melanie et autres pièces justificatives. — Vichy, 1896. (...) Portanto, ninguém, seja de qualquer grau ou condição, se atreva a, no futuro, publicar, ler ou reter os mencionados trabalhos condenados e proscritos, em qualquer lugar e em qualquer idioma, sob as penas indicadas no Índex dos Livros Proibidos. (...) Sua Santidade [Papa Leão XIII] aprovou o decreto e ordenou que fosse promulgado.


O texto condenatório proibiu a obra do Pe. Combe, que, de fato, tinha seus problemas, mas não apontou nenhuma falsidade ou heresia no Segredo de La Salette.


III. A condenação do livro de 1906 de Pe. Combe

Poucos anos após ter sido censurado, Pe. Combe resolveu publicar, em 1906, mais uma obra sobre o mesmo assunto, agora intitulada Le secret de Mélanie, bergère de La Salette, et la crise actuelle”.


A obra continha o Segredo de La Salette junto a comentários que foram resultados de conversas do autor com a própria vidente Mélanie, falecida em 1904. Além disso, continha capítulos destinados a expor a perseguição que a publicação do Segredo sofria dentro da Igreja, incluindo acusações graves e palavras pesadas contra outros sacerdotes.


Em 12 de abril de 1907, seu novo livro também foi condenado no Índex. A condenação foi publicada na Acta Sanctae Sedis XL (1907) com as seguintes palavras:


A Sagrada Congregação (...) condenou e condena, proscreveu e proscreve, ou ordenou e ordena que sejam incluídos no Índex dos livros proibidos as seguintes obras, já anteriormente condenadas e proscritas: (...)

L'ABBÉ G. J. E. COMBE, Le Secret de Melanie, Bergère de la Salette, et la Crise actuelle. Rome, 1906. (...)

Portanto, ninguém, de qualquer grau ou condição, ouse publicar no futuro as obras acima mencionadas, já condenadas e proscritas, em qualquer lugar ou idioma, ou ler e possuir as já publicadas, sob as penas indicadas no Índex dos livros proibidos. (...) Sua Santidade [Papa Pio X] aprovou o decreto e ordenou sua promulgação.


O texto condenatório, mais uma vez, não apontou nenhuma falsidade ou heresia no Segredo de La Salette, nem nos comentários de Mélanie que foram citados com exclusividade na obra.


Henri Prévost de Sanzac, o Marquês de la Vauzelle, solicitou ao Cardeal Louis Henri Joseph Luçon, Arcebispo de Reims, um esclarecimento sobre as condenações aos livros do Pe. Combe. O Cardeal repassou o pedido para Pe. Lepidi, membro do Santo Ofício e do Índex, e encaminhou suas respostas para o solicitante em 19 de dezembro de 1912. A resposta foi:


1. O Segredo de La Salette nunca foi condenado direta ou formalmente pelas Sagradas Congregações de Roma.

2. Dois livros do Sr. Gilbert-Joseph-Émile Combe foram condenados pelo Índex: Um em 1901: Le Grand Coup avec sa Date Probable, étude sur le Secret de La Salette, augmenté de la brochure de Mélanie et autres pièces justificatives.

O outro livro em 1907: Le Secret de Mélanie et la Crise Actuelle.

3. Estas condenações dizem respeito direta e formalmente aos dois livros escritos pelo Sr. Combe e de modo algum ao Segredo.


IV. A condenação de qualquer publicação nova que discutisse o Segredo

Em 21 de dezembro de 1915, o Santo Ofício emitiu uma condenação mais ampla que as anteriores, condenado agora qualquer um que continuasse a “tratar e discutir sobre o chamado Segredo de La Salette em suas diversas formas”, proibindo a todos os fiéis “de qualquer região” e “sob qualquer pretexto ou forma” de discutir o assunto dali por diante. O texto da condenação foi publicado na Acta Apostolicae Sedis VII (1915) com as seguintes palavras:


À atenção desta Suprema Congregação, chegou a notícia de que há alguns, inclusive do corpo eclesiástico, que, desprezando as respostas e decisões da própria Sagrada Congregação, continuam a discutir e tratar sobre o chamado Segredo de La Salette, em suas diversas formas, bem como sua adaptação aos tempos presentes ou futuros, através de livros, opúsculos e artigos publicados em periódicos, seja assinados ou anônimos; e isso não apenas sem a licença dos Ordinários, mas também contra a sua proibição. Para coibir esses abusos que prejudicam a verdadeira piedade e ofendem grandemente a autoridade eclesiástica, a mesma Sagrada Congregação ordena a todos os fiéis, de qualquer região, que não discutam ou tratem sobre o mencionado assunto sob qualquer pretexto ou forma, seja através de livros, opúsculos ou artigos assinados ou anônimos, ou de qualquer outro modo. Que aqueles que violarem este preceito do Santo Ofício, se forem sacerdotes, sejam privados de toda dignidade que possam ter e sejam suspensos pelo ordinário local de ouvir confissões sacramentais e celebrar missa; e, se forem leigos, não sejam admitidos aos sacramentos até que se arrependam. Ambos, além disso, estarão sujeitos às sanções impostas tanto pelo Papa Leão XIII, em sua Constituição Officiorum ac munerum, contra aqueles que publicam livros sobre assuntos religiosos sem a licença legítima dos Superiores, quanto por Urbano VIII, em seu decreto dado por Nosso Santíssimo Senhor em 13 de março de 1625, contra aqueles que divulgam revelações sem a licença dos Ordinários. Este decreto, no entanto, não proíbe a devoção à Santíssima Virgem sob o título de Reconciliadora, popularmente chamada de La Salette.


O texto condenatório não apontou nenhuma falsidade ou heresia no Segredo de La Salette, mas relatou o problema das publicações sem licença que violavam decisões da Santa Sé e assim ofendiam as autoridades eclesiásticas.


Pode-se observar que foi condenado que se discutisse ou se tratasse sobre o Segredo em qualquer forma de publicação, sem especificar nenhum tipo de abordagem. Portanto, da mesma forma que foi censurada a defesa do Segredo, também foi censurada a própria acusação contra ele. Ou seja: quem aponta essa censura como prova de que não se deve defender o Segredo precisa admitir também que ela serve como prova de que também não se pode acusar o Segredo, pois tanto a defesa quanto a acusação são formas de discuti-lo.


Entretanto, o Código de Direito Canônico de 1917 incorporou todas as censuras que eram reguladas por documentos anteriores, e seus cânones censórios foram revogados no ano de 1966, na ocasião da abolição do Índex, como veremos mais adiante. A proibição decretada em 1915, portanto, não está mais em vigor, e pode-se discutir livremente o tema novamente.


V. A condenação da obra de Dr. Mariavé publicada em 1916

Apesar da proibição de novas publicações, elas continuaram sendo feitas. Em 13 de abril de 1916, o Santo Ofício condenou os dois tomos do livro La Leçon de l'Hôpital Notre- Dame d'Ypres - Exegèse du Secret de la Salette publicada por Dr. Henry Mariavé em 1915 em Montpellier. A obra foi adicionada no Índex em 6 de junho de 1916.


Henry Mariavé era o pseudônimo de Dr. Henri Grémillon Montpellier. Sua obra, que não tinha aprovação eclesiástica, pregava o anticlericalismo. Pouco antes de fazer a publicação, o autor encontrou Cardeal de Cabrières, bispo de Montpellier, em um compartimento ferroviário e o ofendeu, chamando-o de maniqueísta. Após publicar a obra, foi excomungado pelo mesmo bispo que ofendera.


A condenação do Santo Ofício foi publicada na Acta Apostolicae Sedis VIII (1916) com as seguintes palavras:


Em uma sessão geral da Suprema Congregação do Santo Ofício, os Eminentes e Reverendíssimos Senhores Cardeais Inquisidores Gerais em assuntos de fé e moral declararam: a obra intitulada “La Leçon de l'Hôpital Notre-Dame d'Ypres - Exégèse du Secret de la Salette - par le Dr. Henry Mariam, tome 1, Paris, 1915; tome II, Appendices, Montpellier, 1915”, conforme as regras gerais estabelecidas na Constituição Officiorum ac munerum, está condenada e proscrita.


A condenação no Índex foi publicada na mesma edição da AAS com as seguintes palavras:


A Sagrada Congregação dos Eminentes e Reverendíssimos Cardeais da Santa Igreja Romana, pelo Santíssimo Senhor Nosso Papa Bento XV e pela Santa Sé Apostólica, em reunião realizada no Palácio Apostólico Vaticano no dia 5 de junho de 1916, condenou e condena, proibiu e proíbe ou ordenou e ordena que sejam referidos no Índex dos Livros Proibidos as seguintes obras: (...) Dr. HENRI MARIAVÉ, La leçon de l'hôpital Notre-Dame d'Ypres. Exégèse du secret de la Salette, Tome I, Paris, 1915; tome II, Appendices, Montepellier, 1915 (Decr. S. Off. 12 abr. 1916).

Portanto, ninguém de qualquer grau ou condição ouse publicar, ler ou reter os mencionados trabalhos condenados e proscritos, em qualquer lugar e em qualquer idioma, sob as penas indicadas no Índex dos Livros Proibidos. (...)

Sua Santidade [Papa Bento XV] aprovou o decreto e ordenou que fosse promulgado.


Mais uma vez, foi condenada uma obra, não o Segredo em si mesmo, ao qual nenhuma acusação foi feita.


VI. A condenação do impresso da Société Saint-Augustin de 1922

Em 10 de maio de 1923, o Santo Ofício condenou a obra L’apparition de la très Sainte Vierge sur la sainte montagne de la Salette" publicada pela Société Saint-Augustin em 1922, ordenando também que fosse retirado o livreto das mãos dos fiéis.


A obra recebera Imprimatur de Pe. Lépidi, assistente perpétuo da Congregação do Índex, emitido em Roma em 6 de junho de 1922. Apesar disso, a condenação foi aprovada por Pio XI e a obra foi adicionada no Índex.


Neste impresso, junto ao Segredo, havia ainda vários anexos. Entre eles, uma carta de Mons. Zola contestava um artigo chamando-o de “verdadeiramente ímpio” e aparentemente “escrito pela mão do Diabo.” O artigo referido era aquele publicado na Semaine Religieuse com um falso anúncio de condenação ao Segredo, do qual já falamos.


Havia na obra também uma denúncia contra Dom Cortet, acusando-o de ter pressionado Cardeal Caterini a condenar o Segredo por meio de uma ameaça de retirada de verbas.


Os anexos também denunciavam que a carta escrita, sob pressão, por Caterini havia sido adulterada por D. Besson quando este a publicou no periódico Semaine Religieuse. Desta forma, a medida pastoral do cardeal repercutiu como se fosse uma condenação ao Segredo, sendo que não era.


Havia também a denúncia que “Cardeal Caterini havia, por meio de uma simples carta privada, comprometido falsamente seus colegas do Santo Ofício e até mesmo a Santa Sé.”


Além disso, entre os anexos, havia uma contestação ao decreto de 1915, dizendo que ele continha problemas de forma e que não invalidava as aprovações anteriores, mas apenas proibia que se discutisse o tema.


Todas essas acusações graves, e ainda expostas desta maneira, só aumentavam os conflitos em torno do tema.


A condenação do Santo Ofício foi publicada na Acta Apostolicae Sedis XV (1923), datada como sendo de 10 de maio de 1923, e continha as seguintes palavras:


Na assembleia geral da Suprema Sagrada Congregação do Santo Ofício, os Eminentes e Reverendíssimos Senhores Cardeais encarregados de proteger a fé e os costumes proscreveram e condenaram o folheto intitulado: “L'apparition de la très Sainte Vierge sur la sainte montagne de la Salette le samedi 19 septembre 1845. - Simple réimpression du texte intégral publié par Melanie, etc. Société Saint-Augustin, Paris-Rome-Bruges, 1922”, ordenando que sejam retiradas das mãos dos fiéis as cópias deste folheto condenado.

E no mesmo dia e hora, o Santíssimo Senhor Pio Papa XI (...) aprovou a resolução relatada pelos Eminentes Padres.


O texto condenatório possui um erro de digitação, pois o título da obra não diz 1845 e sim 1846. De qualquer forma, não houve, outra vez, o apontamento de nenhuma falsidade ou heresia no Segredo de La Salette.


Em algum momento após a publicação da obra, Dr. Henri Grémillon, o autor anticlerical anteriormente citado, comprou mil cópias e adicionou, em cada uma delas, uma carta anticlerical de 11 páginas de sua própria autoria, sob o mesmo pseudônimo de Dr. Mariavé. Após isso, ele pôs os livros novamente em circulação.


Surgiu uma polêmica, então, a respeito da condenação, se era aplicada apenas contra a versão adulterada por Grémillon ou se era contra o impresso original, conforme elaborado pela Société Saint-Augustin.


Em 8 de janeiro de 1957, o Santo Ofício, respondendo a uma carta do Pe. Francesco Molinari, esclareceu que o documento de 10 de maio de 1923, acima citado, condenava o opúsculo também na versão em que não havia o acréscimo da carta de Dr. Grémillon. O esclarecimento foi dado com as seguintes palavras:


Em resposta, tenho a honra de comunicar que esta Suprema Congregação examinou e condenou, com o decreto mencionado, o referido folheto publicado e distribuído pela Société Saint-Augustin, mesmo sem a carta do Dr. Mariavé.


O esclarecimento novamente não apontou nenhuma falsidade ou heresia no Segredo de La Salete.


Portanto, podemos compreender que todas as condenações foram feitas contra obras que publicaram, junto ao Segredo, vários comentários acusatórios e conflituosos, e nunca se referiu especificamente a alguma falsidade ou heresia na mensagem do Segredo.


  1. Quais condenações foram revogadas?


Com a abolição do Índex de Livros Proibidos em 1966, todas as condenações adicionadas nele perderam caráter de lei eclesiástica.


A Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé anunciou a medida da seguinte forma:


“Esta Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, depois de ter questionado o Santíssimo Padre, comunica que o Índex permanece moralmente vinculativo, pois alerta a consciência dos cristãos para tomar cuidado, por uma exigência que decorre da própria lei natural, com aqueles escritos que podem pôr em perigo a fé e os costumes; mas ao mesmo tempo adverte que ele já não tem força de lei eclesiástica com as censuras associadas.” (Notificação sobre a extinção do Índex de Livros, 14 de junho de 1966)


No mesmo ano, também foi revogada a exigência de aprovação para novas publicações sobre revelações privadas. Com isso, também foi revogada a proibição feita em 1915 contra novos comentários sobre o Segredo de La Salette. Seu texto dizia:


“Esta Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé foi questionada se continua em vigor o cânon 1.399, que proíbe ipso iure certos livros, e o cânon 2.318, que impõe penalidades aos infratores da lei de censura e proibição de livros. (...) Resposta:

1) Negativa às duas questões relativas à validade do direito eclesiástico; no entanto, devemos recordar, mais uma vez, o valor da lei moral, que proíbe absolutamente pôr em perigo a fé e os bons costumes;

2) aqueles que sofreram censuras segundo a norma do cân. 2.318 devem ser considerados absolvidos, pelo próprio fato da revogação do cânon em questão.

(...) O Sumo Pontífice Paulo VI aprovou o presente decreto e ordenou a sua publicação.

(Decreto, 15 de novembro de 1966)


Todas as condenações citadas ao longo do artigo contra publicações, portanto, perderam o caráter de força de lei eclesiástica. Isso significa que não existe mais punição nenhuma em vigor, embora tais condenações ainda devam ser entendidas como ensinamentos da Igreja em sua esfera moral.


Em outras palavras: nenhum fiel será punido ao ler ou escrever tais obras; entretanto, aquilo que a Igreja ensinou que era imoral permanece sendo entendido como imoral.


  1. O Segredo de La Salette foi condenado como heresia?


Ao longo de muitos séculos, quando havia uma condenação por heresia, a Igreja costumava condenar o herege que a propagava, o título de sua obra e/ou a sua proposição errônea. A condenação incluía uma pena canônica ao herege, a quem professava seus erros e a quem lesse suas obras, conforme cada caso.


A vidente Mélanie, que recebeu e publicou o Segredo de Nossa Senhora de La Salette, jamais foi condenada por heresia. Tampouco foram condenados, por conta do Segredo, os membros do Clero que o aprovaram, publicaram e comentaram.


Como foi provado ao longo do artigo, nenhuma censura eclesiástica, em todo o caso de La Salette, aborda questões de Doutrina, nem cita proposições perigosas contidas no Segredo. Portanto, podemos descartar como falsa a acusação de que houve uma condenação por heresia.


  1. Que obras com o Segredo de La Salette nunca foram condenadas?


Além de todas as obras citadas acima que sofreram condenações, há muitas outras publicações do Segredo de La Salette que não foram condenadas em ocasião nenhuma, sendo algumas amplamente conhecidas.


Considerando que os principais perseguidores e caluniadores do Segredo foram membros do clero da França, citarei abaixo apenas os impressos em língua francesa que jamais sofreram censura. Além deles, há outros menos conhecidos, tanto em francês, quanto em outros idiomas.


I. Nunca foram condenados os impressos de Claude-Régis Girard

Entre 1871 e 1874, Claude-Régis Girard imprimiu repetidas vezes a versão longa do Segredo sob o título “Les Secrets de La Salette et leur importance”. O livreto foi a primeira publicação da versão estendida da mensagem, copiado de um manuscrito de Mélanie, mas com alguns trechos ainda omitidos, substituídos por reticências e etcéteras.


O autor enviou uma cópia do impresso ao Papa Pio IX e pediu sua bênção em uma carta datada de 30 de abril de 1872. A obra foi aprovada pelo Papa e abençoada, juntamente com o autor, em 13 de julho de 1872. A bênção foi divulgada na obra Les dernières attaques contre la Salette et la reputation des deux bergers (IIIe Opuscule), de C. R. Girard, em 1873, com as seguintes palavras:


BÊNÇÃO

Enviada por S. S. Pio IX ao autor dos dois precedentes opúsculos: Les Secrets de La Salette e Connaissance approfondie de la Ste. Apparition

Nós publicamos este testemunho, embora sejam numerosas as leituras dos eclesiásticos e dos simples fiéis que incentivaram nossas publicações. Compreende-se que a bênção do Papa prevalece sobre todas as outras, e assim afasta qualquer reprovação. (...) – S. S. Pio IX se dignou a aprovar duas vezes nossos opúsculos; o venerável Bispo que os depositou aos pés do Vigário de J. C., já os conhecia, e ele teve a bondade de dizer algumas palavras ao entregá-los. Também nossa última carta enviada foi trazida de volta com uma bênção escrita de próprio punho pelo Soberano Pontífice.


Na sequência, foi exposta a carta enviada pelo autor e, no final desta, consta a bênção do Papa:


Dia 13 de julho,

O Senhor te abençoe.

P. IX, P. P.


A publicação que foi abençoada pelo Papa já revelava o trecho sobre a má vida dos sacerdotes, mas a parte que dizia que haviam se tornado “cloacas de impurezas” estava substituída por reticências. Também a outra parte polêmica, que falava que “Roma perderá a fé e se tornará a sede do Anticristo”, estava substituída por um etcétera.


As obras Claude-Régis Girard com o Segredo de La Salette nunca foram condenadas.


II. Nunca foi condenado o impresso de Abade Félicien Bliard

A obra “Lettres à un ami sur le Secret de la Bergère de La Salette”, publicada em Nápoles em 1873 pelo Abade Félicien Bliard, continha o Segredo em sua versão longa, ainda com alguns curtos trechos omitidos, tal como a obra citada acima.


Esse impresso recebeu o Nihil Obstat de Joannes Can. De Dominicus, censor teólogo, e Imprimatur de Leopoldus Can. Ruggiero como delegado (Pro Deputato).



III. Nunca foi condenada a versão completa publicada por Mélanie em Lecce

Um primeiro livreto com o título L’apparition de la Très Sainte Vierge sur la montagne de La Salette foi publicado em 1879 pela própria Mélanie e continha a versão final do Segredo, sem nenhuma omissão. Recebeu Nihil Obstat e Imprimatur de Dom Zola, bispo de Lecce.


Este livreto nunca foi condenado, mesmo com a denúncia de Dom Cortet, bispo de Troyes. Houve apenas uma carta de Card. Caterini a D. Cortet escrita em 08 de agosto de 1880, na qual foi expressa a sua insatisfação e foi solicitada, se possível, a retirada do impresso das mãos dos fiéis. A carta foi escrita em latim e sua tradução mais precisa é:


A Santa Sé não ficou satisfeita com o fato de a referida obra ter se tornado de domínio público; e, por essa razão, é da sua vontade que os exemplares dessa obra, onde quer que tenham sido divulgados, sejam retirados das mãos dos fiéis na medida do possível.


Como já comentamos, foi publicada, na revista Semaine Religieuse, uma tradução em francês da carta que gerou uma grande polêmica. Esta versão traduzida mudou a gravidade das palavras, dizendo que “a Santa Sé viu com o maior desagrado” e que “seu desejo expresso” é que as cópias da obra “sejam retiradas das mãos dos fiéis em todos os lugares onde isso for possível.”


Segundo Pe. Roubaud, a versão francesa ainda omitiu o trecho final da carta, que, segundo ele, instruía o seguinte sobre os exemplares em circulação: “...mas mantenham-nos nas mãos do Clero para que este possa se beneficiar disso.” Para piorar a situação, a revista noticiou a carta como sendo uma condenação, conforme já dissemos.


Mélanie consultou membros do Índex e do Santo Ofício a respeito da carta. Eles responderam que “ignoraram a carta do Cardeal Caterini” e que aquilo foi “uma iniciativa alheia ao Papa e até mesmo às congregações do Índex e da Inquisição.” D. Pennachi, consultor do Índex, também deu a mesma opinião. Apesar disso, o bispo de Lecce obedeceu às instruções e a obra foi recolhida. Não é possível encontrar cópias digitalizadas desta primeira edição.


IV. Nunca foi condenada a versão comentada por Amédée Nicolas

O advogado Amédée Nicolas recebeu a missão de comentar o Segredo de La Salette quando esteve no Vaticano em 28 de março de 1880 com o Cardeal Ledochowski. Foi-lhe pedido pelo próprio cardeal, em nome do Papa Leão XIII, que “escrevesse um livreto explicando todo o Segredo, para que o público o compreendesse bem”.


Atendendo ao pedido do Papa, Amédée publicou, em 1880, sua obra com o título “Défense et explication du secret de Mélanie de la Salette, publié en novembre 1879 par la bergère Mélanie Calvat”. O livreto diferencia-se por seu teor conciliatório, sem o tom acusativo presente nas obras condenadas acima.


Essa obra, muito famosa em sua época, nunca foi condenada.


V. Nunca foi condenado o livreto da Livraria Sainte-Geneviève de Paris

O impresso Le Secret de la Salette et L’Apparition de la Très Sainte Vierge sur la Saint Montagne, le 19 Septembre 1846, publicado pela livraria Sainte-Geneviève em Paris resume-se ao texto escrito pela vidente Mélanie em 1879 seguido de uma carta de Dom Zola escrita em 1880.


A obra não tem data de impressão, mas foi arquivada na biblioteca Gallica como sendo de 1905. Nunca foi condenada.


VI. Nunca foi condenado o livreto publicado pela Gráfica Notre-Dame de La Salette de Somme

O impresso Très Sainte Vierge sur la Montagne de la Salette le Septembre 1846 publicado pela Gráfica Notre-Dame de La Salette de Somme em 1930, inclui o Segredo completo e apenas tem como anexo uma carta de Dom Zola datada de 1880, tal como o de Paris.


Essa obra nunca foi condenada, embora violasse o decreto de 1915.


  VII. Nunca foi condenado o livreto da Editora St-Michel, Rennes

O livreto L'Apparition de la Très Sainte Vierge Sur la Montagne de la Salette le 19 Septembre 1846, impresso pela Éditions St-Michel, não tem data de impressão.


Resume-se ao texto escrito pela vidente Mélanie em 1879 seguido de uma carta de Dom Zola escrita em 1880, como os citados há pouco. Nunca foi condenada.


VIII. Nunca foi condenado o livro de René Laurentin e Michel Corteville

A obra de René Laurentin e Michel Corteville que, em 2002, divulgou todas as versões do Segredo de La Salette, inclusive a de 1878 completa, recebeu Nihil Obstat de Dom Bernard Billet, da Abadia de Notre-Dame de Tournay, em 13 de fevereiro de 2002, e Imprimatur de Mons. Michel Dubost, Bispo de Evry, em 31 de março de 2002.


Este importante livro trouxe o tema de volta ao debate público e nunca foi condenado.


  1. Conclusões:


I. A Igreja julgou que a versão longa do Segredo é falsa?

Não. Não há nenhum documento de juízo eclesiástico que tenha chamado a versão longa do Segredo de falsa. Essa foi, no máximo, uma opinião minoritária que nunca se tornou uma condenação formal, embora muito se tenha debatido o tema.


II. A Igreja julgou que  a versão longa do Segredo é herética?

Não. Nenhum documento que tenha condenado alguma publicação a respeito do Segredo jamais citou uma proposição da mensagem que fosse heterodoxa.


III. A versão longa do Segredo de La Salette foi condenada?

Não. Como pudemos ver ao longo do artigo, nunca houve uma condenação contra o Segredo em si mesmo, em nenhuma de suas versões. Ele foi livremente publicado em diversas obras que, embora tenham sido denunciadas e analisadas, nunca foram condenadas. Todas as condenações foram feitas contra obras que, além de publicar o Segredo, tinham anexos que acusavam e incriminavam membros da Igreja.


Portanto, podemos ler, comentar, divulgar e defender livremente o Segredo de Nossa Senhora de La Salette, em união com os ensinamentos e o espírito de obediência da Santa Igreja Católica.


Entretanto, de nada vale ler o Segredo sem pôr em prática os seus ensinamentos. Nossa Mãe e Rainha Reconciliadora de La Salette pediu penitência e oração para que o Castigo revelado não caísse sobre o mundo. Atendamos o Seu pedido.


Que Nossa Senhora de La Salette interceda por nós!


  1. Fontes utilizadas:


  • Acta Sanctae Sedis XXX (1897-98) e XL (1907)

  • Acta Apostolicae Sedis VII (1915) e XV (1923)

  • Collection de Documents pour servir à l'Historien futur de La Vie de Mélanie Calvat, Bergère de La Salette, por Editions Résiac.

  • Découverte du secret de La Salette, de René Laurentin e Pe. Michel Corteville.

  • Défense et explication du secret de Mélanie de la Salette, de Amédée Nicolas.

  • L’apparition de la très Sainte Vierge sur la sainte montagne de la Salette le samedi 19 septembre 1846, da Société Saint-Augustin.

  • L'Apparition de la Très Sainte Vierge Sur la Montagne de la Salette le 19 Septembre 1846, da Éditions St-Michel

  • La Leçon de l'Hôpital Notre- Dame d'Ypres - Exegèse du Secret de la Salette, de Dr. Henry Mariavé.

  • Le Secret de la Salette et L’Apparition de la Très Sainte Vierge sur la Saint Montagne, le 19 Septembre 1846, da Livraria Sainte-Geneviève.

  • Le grand coup avec sa date probable, de Émile Combe.

  • Le secret de Mélanie, bergère de La Salette, et la crise actuelle, de Émile Combe.

  • Les Secrets de La Salette, de Max Le Hidec.

  • Les Secrets de La Salette et leur importance, de Claude-Régis Girard.

  • Les dernières attaques contre la Salette et la reputation des deux bergers (IIIe Opuscule), de C. R. Girard.

    Le secret de La Salette a-t-il été condamné?, de Yves de Lassus.

  • Le Saint-Siège et le “Secret de La Salette”, de Abbé Francesco Ricossa.

  • Lettres à un ami sur le Secret de la Bergère de La Salette, Abade Félicien Bliard

  • L’apparition de la Très Sainte Vierge sur la montagne de La Salette, Mélanie Calvat

  • Normas para proceder no discernimento de presumidos fenômenos sobrenaturais, do Dicastério para a Doutrina da Fé, 17 de maio de 2024

  • Très Sainte Vierge sur la Montagne de la Salette le Septembre 1846, Gráfica Notre-Dame de La Salette

  • Témoignages historiques sur Mélanie Calvat, bergère de La Salette, por F. X. de Guibert

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